Sustentabilidade Alimentar
porque é que importa e o que podemos fazer?

IMG_4552Banca do Projecto Raízes, produtora e distribuidora biológica, no mercado Porto Belo, Porto.

Estatísticas e estudos científicos não parecem ser necessários para constatar a grande importância que a alimentação tem nas nossas vidas. Todos nós sentimos fome e procuramos na ingestão de alimentos a saciação dessa sensação fisiológica. E é assim em todo o lado.

Na apresentação do livro “Arquitectura e Comensalidade” de Mariana Salvador, que foi anunciada no blog da LOCAL, Manuel Graça Dias fez uma pequena viagem pelos primórdios da civilização (e da arquitectura) centrado num agente tecnológico de maior relevância: o fogo. Referia que é graças ao seu domínio que  se começou a cozinhar o alimento e com este processo tomar uma acção de modificação e apropriação da natureza (como bem documentado no trabalho de Levi Strauss). Este fogo para além de cozinha é calor. E é também abrigo na construção do espaço a que chamamos lar (derivado de lareira). Refere como, no seu livro “Os quatro elementos da arquitectura”, Gottfried Semper acrescenta a compreensão que sobre a terra, onde se faz o fogo, surgem as paredes que protegem do vento e o tecto que resguarda da chuva. E com este mesmo fogo se modela a terra se criam os utensílios que povoam a casa. Fazem-se as cidades e a complexidades do sistema alimentar leva à criação de silos, matadouros e armazéns. A necessidade de transportes leva à criação de estradas…

A antropologia apresenta o surgimento da agricultura como um ponto de viragem na forma da organização social da história da humanidade. Ela permite a criação de fortes redes de partilha mas também de troca e comércio. Dá também lugar à exploração, das terras e das pessoas. A escravatura que alimentava os caprichos da alta sociedade romana dá lugar aos sistemas feudais da idade média, e esta por fim ao capitalismo.

14087286_10157170376990408_1696065939_oSuperfície de um campo agrícola na região de Basileia, Suíça. Inexistência de solo fértil: baixa percentagem de matéria orgânica, humidade e biodiversidade.

A paisagem capitalista que hoje conhecemos é dominada pela indústria e pela deseducação alimentar que nos foi imposta por décadas de “conquistas tecnológicas” para o “melhoramento da qualidade de vida”. A revolução verde é vista por alguns como a maior arma de democratização para acabar com a fome no mundo (que nada tem a ver com o controlo das terras e das suas colheitas por aqueles que dominam a economia; leia-se com ironia). Se por democrático considerarmos a destruição de florestas para a criação de monoculturas, a extração de petróleo para combustível, para tratores e irrigação, herbicidas, fertilizantes químicos, o esgotamento da água dos lençóis freáticos a erosão do solos pela constante destruição do subsolo por aragem mecânica, importação de alimentos de países em exploração, o tráfico de mão de obra barata, entre os demais, talvez devamos pensar numa outra forma de organização social.

Maior parte dos alimentos que comemos todos os dias são resultado de um sistema alimentar insustentável.

Se a acção política se mostra urgente neste momento, a força que temos como consumidores também o é (dentro da nossas possibilidades económicas e contextuais). Escolher não alimentar o sistema industrial alimentar é um passo para a criação de um mundo sustentável.

PORQUE É QUE IMPORTA?

Quando falamos de agricultura, o sistema humano que supre a necessidade alimentar e de outros recursos, falamos geralmente de um sistema que ignora e se sobrepõe à vida selvagem e cuja produção é focada maioritariamente no lucro, descorando a saúde e a gestão apropriada da vida animal, vegetal, do solo, da água e das pessoas envolvidas neste processo.

Para que seja possível, a agricultura industrial recorre intensamente ao uso de combustíveis fósseis, seja para o bombeamento da água, para a irrigação, para o equipamento de aragem e semeia, para a colheita e num vasto número de químicos usados para manter a possível aparente estabilidade de uma monocultura: herbicidadas, fungicidas, fertilizantes químicos.

O governo continua a subsidiar estas monoculturas.

IMG_4884Monoculturas de girassol para a produção de óleo em Espanha central. Grande dependência de irrigação.

Os alimentos são transportados e processados recorrendo a energias não renováveis. São geneticamente modificados para aumentar os níveis de produção, e por fim patenteados.

A vida urbana ignora e vive uma ideia idealizada da ruralidade, fetichizando com a ideia do lavrador e da lavradora, que foram, entretanto, massivamente desinformados pelas cooperativas agrícolas e pelas directivas oficiais para a agricultura. Vivemos cada vez mais separados da origem do nosso alimento e somos forçados a acreditar que certificados e rótulos são sinónimo de segurança alimentar.

Alimentos produzidos sustentavelmente não necessitam de rótulos pois são comida de verdade adequada para o nosso organismo. São saudáveis para o ser humano, para o solo e animais e não têm impacto no ambiente. Sustêm a vida de quem a produz e a economia local em vez de alimentar grandes corporações.

mapAs dez corporações que controlam a alimentação mundial. Fonte: Convergence Alimentaire.

O QUE PODEMOS FAZER?

Reaprender o que é comida de verdade não precisa de ser um bicho de sete cabeças, e no final de contas sabe muito melhor. Ficam por aqui algumas ideias e ações que têm uma repercussão na nossa qualidade de vida e na paisagem que nos rodeia:

> APRENDE SOBRE O CUSTO DA COMIDA BARATA.

Já alguma vez te questionaste o porquê da comida no supermercado ser tão barata? Podes não pagar no supermercado, mas o custo para a saúde, para o solo, para o ambiente, para a economia e para aqueles que a produzem está todo lá. Os únicos que ganham são os que ficam com a grande margem de lucro.

> COME ALIMENTOS LOCAIS

Para além de se conseguir alimentos mais frescos ao comprá-lo de origem local, estarás a alimentar a economia daqueles que te rodeiam e não estarás a financiar um sistema complexo de transportes e frigorificação de alimentos importados. Conhecer quem está envolvido na produção e colheita da nossa comida permite saber de que forma é que ela chega até nós. A horta lá de casa, mercados de produtores e cabazes semanais são algumas das muitas hipóteses.

IMG_4951Rúcula selvagem a crescer espontaneamente no centro de Berlim, Alemanha.

> COME ALIMENTOS SAZONAIS

Só com a intricada estrutura económica que temos é que podemos pensar em comer uvas oriundas da África do Sul em maio quando sabemos que na nossa região a sua colheita ocorre em setembro. O inverno apresenta naturalmente alimentos mais quentes como raízes e verduras resistentes e no verão há uma abundância de fruta e vegetais para salada. Não só é mais saudável como se torna mais barato já que se respeita os momentos de abundância de cada alimento. Até os ovos e os lacticínios têm as suas épocas de abundância específicas (se respeitarmos o ciclo dos animais e não os forçarmos com luzes artificiais e hormonas).

> COME ALIMENTOS BIOLÓGICOS

A agricultura biológica colhe a sua inspiração da natureza – valoriza o ciclo de nutrientes entre plantas e animais, a decomposição natural e a diversidade da abundância dos ecossistemas saudáveis. Recorre ao reaproveitamento de recursos orgânicos para a construção de solo e respeita os ciclos do ano no crescimento de cada espécie. Foca-se mais na prevenção de desiquilibrios do que na resolução de problemas: criação de bom solo, retenção da água no solo, complementaridade das espécies e reestabilização da diversidade ecológica. Desta forma colhemos alimentos saudáveis, sustentáveis permitindo boa condições de trabalho. Infelizmente também este conceito foi usurpado pela industria que usa o rótulo “biológico” como ferramenta de marketing para vender produtos mais caros e de fraca qualidade.

> PENSA NA PAISAGEM

As escolhas que fazemos ao comer definem a paisagem que nos envolve. Ao comer no inverno uma couve salteada com azeite, alho e carne de porco preto de pasto estamos a alimentar uma paisagem muito diferente se comermos arroz basmati com molho de tomate em lata, robalo de aquacultura e alface de estufa.

IMG_5832Biodiversidade numa horta urbana no sul de Berlim, Alemanha.

> CRIA UMA HORTA

Por mais pequena que seja, nem que seja um vaso na janela da cozinha, produzir o nosso próprio alimento é uma forma de conhecermos os ciclos das colheitas e ao mesmo tempo termos alimentos frescos mesmo à mão. Verduras são dos alimentos mais inflacionados por serem rapidamente perecíveis e nos quais se usam mais químicos, sendo que a maioria é resultante de produção hidróponica (sistema de cultivo em água complementada por minerais fertilizantes de síntese). Tornam-se assim uma boa escolha para começar.

> COME PRODUTOS ANIMAIS

O consumo de animais de pasto bem gerido e selvagens é mais sustentável do que alimentos oriundos de monoculturas e importadas de localidades distantes. Preservam-se paisagens como os montados (paisagens características do Alentejo) e as escarpas onde apenas cabras convertem mato em proteína e gorduras saudáveis. Afinal uma grande parte do território terrestre é estepe.  Para além de contribuir para uma paisagem diversificada o pasto tem vindo cada vez mais a ser aplicado como método de regeneração do solo. Escolhe peixe selvagem e de espécies abundantes. Dá preferência à pesca de pequena escala se viveres numa zona costeira.

13224285_10209462959268820_587687758_oVacas a pastar, The Farm, São Miguel, Açores. Foto de Gena Pinheiro.

> APRENDE A COZINHAR

Nada disto fará sentido se não conseguirmos transformar os ingredientes da terra em refeições maravilhosas. Não são necessárias grandes extravagâncias para se fazer boas refeições. Se comeres muitas vezes fora, opta por restaurantes que respeitem a equipa que os constitui, cujo trabalho dos seus funcionários seja condignamente remunerado e que façam escolhas inteligentes, como a utilização de produtos biológicos, o recurso a carne de pasto e a separação e reaproveitamento dos lixos recicláveis e orgânicos.

> ABDICA DE PRODUTOS PRÉ-FABRICADOS EM FUNÇÃO DE COMIDA CASEIRA

Caixas de bolachas, comida enlatada, leite pasteurizado, patés, iogurtes de sabores, pizas empacotadas, comida de microondas, pastelaria… representam sempre uma grande número de embalagens nas quais estão escritos muitos ingredientes que não reconhecemos e que não crescem numa horta. Comer ingredientes de verdade torna as refeições mais simples e apetitosas. Os restos das refeições são óptimos snacks e aproveitam um recurso que muitas vezes é deitado ao lixo.

> REDUZ NAS EMBALAGENS

Os materiais usados nas embalagens alimentares dependem de recursos materiais e energia para a sua produção. Optar por alimentos eficientemente embalados ou embalados com materiais reciclados permite reduzir a quantidade de lixo que acaba em aterros. Uma óptima estratégia para reduzir embalagens é comprar produtos a granel. Usa sacos de pano para ir às compras. Maior parte dos alimentos não precisam de ser ensacados pois já possuem a sua embalagem natural. Se for inevitável o uso de alimentos embalados prefere as embalagens de vidro – as embalagens de vidro podem ser reutilizadas para acondicionar alimentos preparados em casa. Opta por filtrar a água da torneira para encher uma garrafa em vez de beber água engarrafada. A eliminação de bebedouros e fontes públicas é sintomático da privatização de recursos essenciais.

IMG_4628A indústria alimentar e a centralização da produção leva à vulgarização das embalagens descartáveis.

> O LUXO DO LIXO

Para além do impacto que o transporte e o embalamento acarreta, o desperdício alimentar urbano é uma das grande problemáticas da gestão de lixo. O desperdício de alimentos representa uma pegada hídrica muito alta assim como desperdício do combustível usado na sua transportação. Guarda o que sobra das refeições para comer durante o dia, normalmente apresenta-se como uma opção mais saudável do que bolachas e doces e poupa-se em compras e embalagens. O lixo orgânico representa uma grande percentagem do lixo doméstico e ao ser compostado permite a criação de solos férteis e a redução dos aterros de lixo urbano.

IMG_4649Irresponsabilidade social de grandes cadeias de supermercados.

> CRIA AMBIENTES DE REFEIÇÃO SALUTARES

Prefere utensílios reutilizáveis a equipamento descartável, usa guardanapos de pano, usa equipamento de vidro, ferro fundido e aço inoxidável em vez das tóxicas e poluentes panelas de alumínio e Teflon ou utensílios de plástico. Reaproveita frascos e utiliza-os para guardar alimentos no frigorifico ou preservar alimentos através da fermentação.

> QUESTIONA, CELEBRA E PARTILHA

É importante saber o que comemos, de que forma é produzido e de que forma chega até nós. Os momentos à volta da mesa são quase sempre momentos de partilha e celebração e é importante que representem a construção de um mundo saudável.

Mais ideias para esta lista?

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