ceci n’est pas un restaurant

Deve ser bom sinal que, mesmo antes da LOCAL existir fisicamente, já se criem mitos sobre o projecto. Ultimamente a pergunta que me chega aos ouvidos com mais frequência é:

“MAS QUANDO É QUE ESTE RESTAURANTE VAI ABRIR?”

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RESTAURANTE!!!??

Segundo Rebecca Spang no seu livro “A Invenção do Restaurante”, os restaurantes surgiram em França, Paris, na segunda metade do século XVIII como pequenos estabelecimentos conhecidos como “casas de saúde”, onde pessoas fracas ou debilitadas podiam comer caldos restauradores (“bouillon restaurant”). O consumo destes caldos, chamados de “restaurant”, levaram a que os próprios estabelecimentos acabassem por assimilar este nome (incluido nos dicionários, pela primeira vez, em 1835). Com o passar do tempo a gastronomia passa a ser encarada abertamente como uma questão não só de saúde mas de paladar, de prazer e de estética, levando à formação do conceito de restaurante que conhecemos hoje.

Quando falados de comida, pensar em restaurantes pode ser uma forma muito redutora de percepcionar o complexo sistema que que é o acto de comer. A envolvência deste acto, considerado frequentemente como o basilar para a vida, leva à reflexão de um vasto conjunto de áreas como política alimentar, agricultura, economia, sustentabilidade, antropologia, nutrição, entretenimento, paisagismo, gastronomia… e claro está, restauração. E é esta diversidade de perspectivas sobre o acto de comer que se torna o enfoque da LOCAL:

De certa forma a LOCAL é um restaurante, mas não pelo significado etimológico que damos a esta palavra. É um restaurante na perspectiva em que procura restaurar a relação que temos com o acto de comer. Restaurar não sobre uma visão apenas nostálgica, na busca de recuperar a verdade ancestral perdida, que provavelmente nunca existiu, mas sim na vontade criativa de compreender de que forma podemos celebrar o acto de comer, no mundo em que vivemos agora, com a integridade permitida por todo o conhecimento que até aqui conquistamos e que poderemos vir a descobrir.

É o fundir destas áreas que suporta a metodologia a que chamamos de Ecologia Alimentar na procura da construção de uma realidade alimentar funcional.

Com este enfoque a LOCAL torna-se uma plataforma para que muitas coisas aconteçam: oficinas, eventos, política alimentar, consultoria, educação, divulgação, investigação, biblioteca, exposições, receitas, conferências, projectos…

O espaço fisico, que está a nascer aqui, vai potenciar um ponto de encontro em torno destas questões, beneficiando de uma cozinha/laboratório e de um espaço polivalente para exposições, oficinas, debates, filmes, refeições, permitindo ser também base de criação de actividades que vão tomar lugar em muitos outros locais.

No final de tudo, sim, a LOCAL pode ser um restaurante, mas é muito mais do que isso.

 

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